Pisando no terreno da discórdia: Maple x Rosewood

Bom dia, companheiros de guitarra!

Depois de um longo hiato estou de volta e chegando na voadora!

Pra começar, me considero um guitarrista amador, porém, um curioso voraz e leitor de fóruns de guitarra de longa data. Já sou dessa nova geração que aprendeu muita coisa através da internet, mas há uns 12 anos venho fuçando também com a mão na massa. Eu não costumo espalhar o senso comum na rede sem antes experimentar muito o que estou em dúvida. E essa dúvida do título me acompanha há muitos anos! Vamos a ela:

Quando eu comecei a tocar, eu não fazia a menor idéia das diferenças entre as diversas madeiras, captações, e até mesmo a diferença entre as guitarras, marcas, amplificadores, etc… Comprei a minha primeira guitarra, uma Squier Bullet, com base no valor que eu podia pagar. Essa guitarra foi passada pra frente não muito tempo depois, porque eu sentia que não tinha com ela o som que eu gostaria. Na época eu era cabeludo e queria fazer um som pesado! Nos rolos da vida consegui uma Jackson coreana com Floyd Rose, 2 humbuckers e 1 single coil no meio. Aprendi com ela a me divertir com a alavanca (tremolo bar) e fiz vários sons pesados, mas, com o tempo, também aprendi como é irritante não poder brincar em outras afinações devido ao tipo de ponte e suas condições. Por fim, voltei às origens e troquei a Jackson numa Tagima 635 (pra quem não conhece, ela é basicamente uma cópia das Fender Stratocaster) que me acompanha desde 2004 com o diferencial dessa última guitarra possuir escala clara, nesse caso, marfim.

Foi o meu primeiro contato com esse tipo de escala e, confesso, por motivos estéticos. Até então eu nunca havia pensado nos detalhes de uma guitarra e na diferença que isso provocava. Com o passar dos anos, a frescurice acaba nos afetando. Juntamente com a evolução tecnológica e a introdução de vários novos produtos no nosso mercado eu pulei de uma Zoom 505 II pra uma Zoom G1N, depois para pedais analógicos e depois entrei na busca de um timbre perfeito com um amplificador valvulado.

Com o equipamento mais refinado, você obviamente consegue prestar muito mais atenção aos detalhes e vai apurando os seus ouvidos. Enquanto que meu gosto musical também mudou e eu conseguia tirar com fidelidade vários sons do Pink Floyd eu sentia que a minha strato não era compatível com todo o tipo de som que eu ouvia das stratos. Pensei que os problemas pudessem estar nos captadores, inicialmente. O meu eterno camarada Frankli me trouxe uns captadores ativos da Schaller diretamente da Europa mas depois de instalados eu confesso que a diferença ainda não era grande e que o som que eu desejava não podia ser alcançado. Numa das minhas frustrações comuns eu botei fogo na minha Tagima. Embora esse experimento maluco tenha favorecido demais o timbre da minha guitarra, eu nunca cheguei ao som que eu ouvia em artistas como Stevie Ray Vaughn, John Frusciante ou Jeff Beck.

Bom, analisando os diversos vídeos e equipamentos desses artistas, eu reparei que todos eles usavam guitarras Stratocaster com escala de rosewood. Foi quando comecei a suspeitar que os muitos fóruns de guitarra que afirmam que apenas 10% de um pedaço de madeira não poderiam afetar tanto o timbre poderiam estar errados. Era tanta gente afirmando que a diferença era basicamente estética que eu demorei a desconfiar dessa possibilidade. Enfim, na minha busca louca pelo som desses guitarristas eu fui testar guitarras com escalas de rosewood e a minha grata surpresa foi a de que eu finalmente tinha como chegar no som deles bastando ajustar bem a altura dos captadores!

Acabou aí? Não… Existem inúmeras discussões que tentam minimizar a diferença entre as escalas e jogam a culpa no restante das madeiras. Alder, Ash, Swamp Ash, Basswood com maple top, Mogno, Marupá, compensado… Todas essas madeiras (ou agrupamentos) que podem compôr o corpo de uma guitarra de fato afetam algumas características de uma strato, mas eu testei vários modelos e garanto que aos meus ouvidos a diferença mais brusca está no material da escala, captação e modelo da ponte.

Ontem eu estava procurando ouvir a diferença entre captadores de alnico e captadores cerâmicos (discussão que pode aparecer em algum post em breve) e cheguei a um vídeo onde a diferença entre as escalas ficou muito evidente e com ele me inspirei a escrever esse post. O link pra análise agora é de vocês:

Pra mim é bastante evidente, mas muita gente acha que é algo subjetivo, que não se trata apenas das escalas, etc…

Ao meu ver: O som das escalas claras (com acabamento em verniz, normalmente) possuem um som mais estalado, com menos graves e menos sustain. É um som mais clássico e facilmente identificado nas performances de David Gilmour ou Eric Clapton.
Já o som da escala escura é mais focado, menos brilhante porém com mais graves e com sustain prolongado.

Uma explicação física simples consiste em afirmar que a mudança entre as madeiras da escala (com suas diferentes porosidades e durezas) faz com que a corda também vibre de maneira diferente quando você pressiona a corda contra a madeira, conferindo um som bastante diferente de acordo com a escala e seu acabamento.

A opinião agora é de vocês! Fiquem a vontade pra discutir e espalhar esse material!

Atualização: Sugiro que acessem os comentários e vejam a contribuição do leitor Rafael Ferrace na discussão! Ele compartilhou um material excelente para comparação e discussão do assunto.

Plugins VST

Sempre que começo o papo com algum colega amante das guitarras o assunto gira e sempre acabamos por falar sobre tecnologia e novas soluções para as guitarras. A conversa sempre acaba atravessando e chegando nos plugins. A maioria, para não dizer todos os guitarristas que converso, já tentou em algum momento utilizar plugins e são quase sempre as mesmas queixas como a latência, ruídos e qualidade do som que antes de qualquer coisa devemos lembrar que é simulado. Antes de chegar nos plugins temos que considerar dois aspectos fundamentais:

Interface: É logo aí que começam os problemas de latência. De nada adianta ter o plugin rodando bonitinho e ligar em uma placa convencional de computador. É fundamental ter uma placa que suporte a tecnologia ASIO para reduzir a latência a níveis que o ouvido humano não se importe muito (5ms a 11ms). Sem uma placa apropriada a latência dificilmente será menor que meio segundo, o que já faz do uso do plugin algo impraticável. A graça do plugin é tocar em tempo real. Já vi quem use o plugin depois da guitarra gravada limpa, mas não fica a mesma coisa pois ouvindo na hora você consegue por no toque a dinâmica que aquela simulação oferece. Dá para tapear mas não tem graça.
Uma placa que sempre recomendo para quem quer começar com os plugins é a M-Audio Fast Track USB:

Ela já suporta ASIO e tem também entrada para microfone balanceada e com 48+ para microfones de condensador. Só tem um canal, mas dá para fazer altas coisas com ela em um home studio. Ela também tem saídas de linha para monitores de estúdio. Em relação aos ruídos, não preciso dizer que além de uma boa interface é necessário utilizar bons cabos, o instrumento com a parte elétrica em dia e ter um sistema de aterramento bem feito ligado a todo o sistema.
Outra opção é comprar uma interface própria para estes plugins vendida pela empresa Native Instruments que desenvolve o Guitar Rig e que é bem compacta:

Existe ainda uma interface da mesma empresa que oferece a versatilidade de ligar a guitarra e tocar com plugins no seu iphone:

Quanto muito acho bem bacana, mas só para brincar mesmo. Nunca toquei em um, mas algo muito miniaturizado não me chama a atenção. Não sei se existe alguma restrição nesses hardwares para usar em plugins de outra marca, mas pela dúvida eu ainda fico com a M-Audio.

Qualidade do som: Os plugins são simulações de equipamentos clássicos que evoluíram muito e tiveram as contribuições de tecnologias como a de “convolução” que firmaram a sua posição no mercado. Os guitarristas normalmente são puristas e não conheci um que tenha dito que um plugin faz o mesmo que um equipamento real. Eu também sou bastante cabeça dura no assunto mas não nego o quanto facilitaram a minha vida. Uso muito para estudar, tocar sem atrapalhar os outros e gravações em que o foco não é o timbre perfeito ou ainda quando quero brincar com algum equipamento que não tenho a menor hipótese de ter em mãos. Não é a mesma coisa mas dá para ter uma noção de como é. Em estúdio facilita muito as coisas para gravar linhas limpas e efeitos de modulação. Os overdrives tapeiam, as distorções não convencem, principalmente as de alto ganho. Por enquanto não conheço nenhum plugin de guitarra realmente apetrechado. As marcas investem no desenvolvimento de ferramentas para produção musical em geral e chegam até a criar hardware próprio para processar os plugins e torná-los tão rápidos e fiéis quanto os equipamentos físicos:

Agora é esperar que invistam assim na guitarra, o que não deve faltar muito. 
 Não vou falar de todos os Plugins de guitarra que existem e certamente eu não conheço nem a metade, mas indico aqui o Guitar Rig e o Amplitube:
São os campeões de vendas. Gosto mais do amplitube e senti um cuidado maior na simulação dos amplificadores e pedais antigos. O Guitar Rig gosto muito das opções de reverb, delays e para tocar sons mais “pesados”, mas mesmo assim as simulações de ganho alto não me convencem como já falei antes.
Posso ficar dias falando sobre isso, mas recomendo aos interessados que tentem tocar em algum lugar com plugins e tirem as suas conclusões. Eu gosto e me resolve vários problemas. Moro em apartamento, amo os valvulados mas tenho a consciência que não sou o único morador do prédio e prefiro não comprar briga com os vizinhos. Para finalizar, vale lembrar que os plugins casam bem com pedais “de verdade” e dá para fazer altas coisas. Uso muito para gravar samples de guitarras e pedais sem esquentar muito a cabeça com microfone e tal.
Que tal um dia uma jam session virtual?
Um abraço!

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Controlador de pedais com Arduino – Relés Parte II

E aí turma esperta, tudo bem? Finalmente consegui finalizar todos os testes com os relés e encerrar essa etapa do controlador. Uma coisa que descobri em alguns relés é que se você aplicar a tensão redondinha que vem marcada nele, ele apresenta ruído no som. É um pouco frustrante você querer seguir o datasheet e descobrir que o produto não responde tão bem. Na maioria das vezes é um HUM bem chato que fica no som quando o relé está ligado. Isso indica que existe tensão “a mais” e a bobina acaba gerando um campo muito grande que invade a parte de comutação e chega no sinal que estamos trabalhando. Além desta situação, o relé acaba por aquecer, trabalhar na pressão e durar menos. Pesquisei bastante nos vários circuitos disponíveis no mercado e notei que raramente ativam o relé na tensão redondinha que vem marcada nele. Isso tem a ver com a vida útil do componente e também com a ativação mais suave que já vou falar.  Não notei o problema em muitas marcas, mas em especial nas marcas mais desconhecidas isso é muito comum. Os relés começam a operar sempre com 75% ou 80% da tensão nominal indicada pelo fabricante. E é bem nessa base ou um pouquinho mais que eles devem operar. Defini os meus para 90% para não ter perigo com oscilação de tensão nem com a tensão batendo no limite e gerando ruído. Como falei, não acontece em todos os relés. Curiosamente só notei isso em alguns relés 12v. Nos de 5v que estou trabalhando no controlador não notei nenhum problema, mas dei essa margem de segurança para não ter problemas. No outro post do assunto falei da solução para o problema de click dos relés. O esquema que usei circula livremente pela internet e se for bem construído resolve todos os problemas:

Antes das considerações, vale alertar que o circuito foi projetado para 12v mas funciona muito bem com 5v com um leve ajuste.
Q1 é responsável por ligar o relé propriamente dito. O capacitor C1 vai carregando e faz com que o transístor ligue o relé mais lentamente. É legal tirar o capacitor de 4.7uF e colocar um valor alto tipo 470uF para você ver bem o que ele faz. Não conseguimos notar no ouvido, por isso é legal fazer o teste para sacar como funciona. O capacitor C2 faz o transístor desligar mais lentamente. Agora podemos falar do ajuste. O circuito é para 12v e foi pensado para oferecer uma curva bem maior que vai de 0 a 12v no relé e permitir uma comutação suave. Como vamos operar com metade desta tensão, a curva precisa ser adaptada. Basta mudar o valor de 4.7uF para 10uF e fica igualzinha a resposta do circuito com 12v. Lembra que falei para vocês que iria construir o controlador com os ultra micro relés? Poisé, desisti… O esquema apresentado funciona muito mais com relés miniatura. Os pequenos possuem agulhas muito próximas e fica difícil para o circuito forçar uma ativação lenta. Assim que chega na tensão mínima necessária as agulhas de contato já estão colando e não resolve muito o problema. Quem vai usar relés pequenos deve comprar de marca boa pois não existem milagres com circuitos para tirar os clicks. Para encerrar, D1 descarrega rapidamente o capacitor C1, para que na próxima ativação ele esteja zerado e funcione perfeitamente na sua curva de subida para ligar o relé. Faço aqui uma observação importante. Quebrei a cabeça pois fiquei com medo que essa descarga “invertida” pudesse queimar a porta do arduino e resolvi medir. O capacitor quando deixa de ser utilizado guarda 0,5v, que passa pelo diodo que dá uma queda de tensão de 0,7V. Logo, não chega nada relevante na porta do controlador que vá queimar alguma coisa. Ao descarregar o capacitor, medi na porta do arduino 0,02v e em questão de milisegundos 0v. Então não precisamos esquentar a cabeça pois o esquema sugerido pelo pessoal da Geofex está impecável! Ah, não esquecer de calcular um valor novo para o resistor do led se for montar em 5v. Não sei se falei antes, mas todo o projeto está demorando bastante por falta de tempo e de peças que ainda não chegaram. O próximo passo é começar a construção da placa central e mostrar algumas soluções para facilitar as coisas.

Black Bug – Yellow Distortion

Dias atrás o meu colega de trabalho e guitarrista Fernando me pediu para dar uma olhadinha em um pedal esquecido no fundo do baú. Ele reclamou que o pedal não tinha o som que procurava e também apresentava ruído com muita facilidade. Resolvi ajudar na medida do possível. Aproveitei a oportunidade para publicar aqui no blog o que encontrei pelo caminho. Não consegui descobrir qual o ano de introdução da marca, muito menos a idade do pedal em questão. Segundo o proprietário o pedal é antigo, lá de 2002 +- e estava guardado a um tempão. Por isso também reforço já aqui no começo que não sei como estes pedais estão saindo da fábrica nos dias atuais, por isso em momento algum as opiniões publicadas aqui podem ser consideradas permanentes. Não conhecia a marca, muito menos o modelo. Outros modelos só vi pelo catálogo na internet e não sei como são. O pedal é bonito, padrão MXR em uma caixa de alumínio fundido bem robusta. A primeira impressão foi boa e para o custo de 90 a 120 reais me pareceu bem bacana. O alumínio foi fundido em um gabarito provavelmente de gesso. Notei que a superfície é muito porosa e a tinta acaba entrando nos furinhos, o que obriga a colocar muita tinta para cobrir todo o pedal. O fabricante diz que a pintura é eletroestática. Neste pedal certamente não foi, mas como disse é um pedal já “antigo”.
Antes de qualquer outro comentário vamos falar do som. Resolvi colocar o pedal no amplificador e testar. Usei uma bateria para eliminar problemas com ruídos. Não deu ruído, mas depois descobri algumas fragilidades no uso com fontes.
O som propriamente dito em nada se parece com o MXR Distortion +. Apesar do focinho ser igualzinho, o pedal tem um som bem diferente. A distorção me pareceu muito seca, raspada e com os graves extremamente roncados. O pedal com o ganho no mínimo satura e lembra um fuzz só que muito seco. Devo dizer que pelo preço e pelo som é um pedal indicado talvez para o guitarrista mais iniciante para um primeiro contato com uma distorção. Talvez quem queira fazer um grunge mais exótico o pedal sirva. Para quem procura sons mais clássicos ele vai ficar devendo.
O dono do pedal me perguntou se seria possível melhorar o som dele. Aí resolvi abrir para ver o que poderia fazer por ele.
 O pedal tem um compartimento interessante para a bateria separado com um plástico que me pareceu suficiente:

 Assim que abri entendi o motivo do pedal ser tão sensível e ter ruídos com facilidade. O aterramento da caixa é feito com uma pequena folha de cobre soldada na placa e que é prensada contra a caixa quando o pedal é fechado:

 Sinceramente não entendi a razão de ser assim. A tampa fecha bem mas não com pressão suficiente para manter a folha de cobre bem firme contra a caixa. E mesmo que ficasse, não é um aterramento muito eficiente. O mesmo poderia ser feito na carcaça dos potenciômetros, nos jacks (se utilizados de metal) ou na pior das hipóteses até mesmo com a parte metálica do dpdt que fica em contato com a caixa. Além disso faltou um capacitor de 100uF na entrada da fonte para filtrar eventuais resíduos provenientes da rede.
Olhando a placa por trás reparei que não tinha praticamente nenhum circuito e a placa é feita mais de “terra” do que outra coisa. Sanei a minha dúvida ao tirar todos os parafusos e removê-la da caixa:

Mais uma vez fiquei sem entender como o pedal foi pensado. A placa foi toda desperdiçada e o circuito mesmo acontece em uma plaquinha toda pendurada na placa principal:

O que achei mais curioso é que a marca gastou dinheiro para mandar fazer uma placa padrão comercial com serigrafia de componentes e acabamento com verniz verde mas não aproveitou o tamanho para aplicar o circuito. A placa pendurada que é também o “coração do circuito” abriga um integrado 741, foi feita de forma artesanal e não possui a mesma qualidade da placa principal. Ficou estranho. Outra coisa muito estranha que encontrei foi o uso de resistores de 1/8w, 1/4w e os desnecessários 1/2w. Parece que foram colocando os que tinham disponíveis nas caixinhas na hora. No caminho do sinal foram usados muitos capacitores cerâmicos, o que explica o som tão seco, raspado e potencialmente ruidoso. O pedal também não possui parte de clipping, o que também faz a distorção roncar tanto e ficar seca. Os potenciômetros foram soldados com terminais prolongadores e também não entendi o porquê de não usarem fios simples. Para montar e desmontar o pedal é preciso ter cuidado pois se não for tudo bem encaixado torce todo o pedal por dentro e entra tudo em curto. Nas duas placas nota-se que o fenolite foi cortado com um alicate, o que deixou algumas partes rachadas. O pedal realmente é handmade. Dá para ver bem isso. As soldas nas placas foram todas feitas manualmente e dá para ver o fluxo que não foi removido e ficou aquele amarelado em volta.
O dpdt é feito com uma chave simples, das mais baratas encontradas no mercado mas com um bom funcionamento. O led foi adicionado com um transístor que segue o mesmo princípio do millenium bypass encontrado em vários sites e em alguns pedais originais como o ProcoRAT. Funciona bem, tanto o led como o bypass sem ruídos ou estalos. Ponto positivo. Como os potenciômetros foram montados de uma forma mega estranha, instalaram fita isolante nas laterais da caixa para evitar que os terminais encostassem na caixa:

Outra gambiarra curiosa foi a adaptação que fizeram para o dpdt ficar soldado na placa:

Soldaram terminais simples na placa e depois soldaram na chave até ela ficar presa na placa. Achei a solução engraçada mas com o tempo o peso da própria placa pode arrancar as trilhas e aí não tem mais remédio. Na foto ainda dá para ver o “cutucão” que deram com o ferro de solda marcando o plástico da chave.
Conclusão:
Por enquanto me limitei a olhar o pedal. Embora fácil, não fiz nada para resolver o problema do aterramento e da falta de um filtro no jack da fonte. O Fernando me pediu para ver se podia resolver isso e dar uma “melhorada nele”, caso contrário, gostaria de aproveitar o que fosse possível do pedal para fazer um novo. A resposta é muito longa: Não vale a pena. O pedal tem um propósito e não adianta ficar inventando moda. É um pedal simples, low cost e indicado para quem está iniciando ou quer experimentar mais um dos milhares pedais disponíveis por aí. No caso do meu colega que é um guitarrista já mais apetrechado, vou sugerir utilizar a caixa e o dpdt para abrigar um outro circuito que podemos falar mais tarde.
Não sei como este modelo está saindo de fábrica agora, se foi melhorado ou não. A impressão que passou é que tudo estava muito no início mas já havia uma tentativa de profissionalizar a coisa e transformar em algo comercial mais sério. Pelos vistos até agora conseguiram já que estes pedais se encontram no mercado a uns bons anos e com diversos outros efeitos novos na linha. Achei que a fábrica acertou na mosca com a caixa mas não aproveitou bem para desenvolver a placa. Tem muita placa sobrando e dava para colocar um circuito muito mais elaborado e funcional. As empresas terceirizadas que fazem as placas cobram pela dimensão e não pelo número de furos e trilhas. Logo, a empresa jogou dinheiro fora e consequentemente o consumidor final perdeu com isso também.
E agora, o que vamos fazer Sr. Fernando?!

Sample do pedal para os mais curiosos:

Controlador de pedais com Arduino – Buffer

Então vamos continuar com o papo do controlador. Agora o assunto é muito mais amplo e não se limita apenas ao controlador. Buffer… O que é e para que serve?
Um buffer serve para compensar as perdas de sinal que ocorrem entre ligações e/ou cabos muito longos. Um bom buffer não altera em nada o trimbre e a equalização do instrumento e muito menos coloca ou tira ruído do som. Um buffer serve também para casar melhor a impedância entre o instrumento e o amplificador em alguns casos. Ao adicionar um circuito assim ao seu instrumento você pode utilizar mais cabos e mais pedais True Bypass sem ter problemas de deterioração do sinal. Um artigo super bacana sobre buffers e True Bypass você encontra AQUI no site do grande mestre Pete Cornish. O artigo fala do problema que o True Bypass traz. Ainda mais quando se fala em controladores de pedais. Muitas soldas, muitos cabinhos, jacks, entradas e saídas. O sinal passa por muitas barreiras e o som vai perdendo cor, brilho, equalização e força. O próprio Pete sugere utilizar um pedal de buffer que ele mesmo vende pela bagatela de quase 400 euros. Mas o que está em questão aqui não é o pedal do Pete. O circuito dele utiliza um transístor simples e pelo que descobri nos meus testes é preferível um buffer com um circuito integrado ou um transístor fet pois o risco de ter ruídos é muito menor. 
 Pedais como os ibanez e boss  já possuem buffer e este fica ativo mesmo com o pedal em bypass. É uma coisa boa para quem usa vários pedais. Basta um no começo da cadeia para compensar os outros true bypass. O que ocorre é que mais de dois pedais assim já começa a atrapalhar o sinal. Imagine “entalar” 3 ou mais vezes o mesmo circuito no caminho do sinal original do instrumento. Começa a ter problemas de ganho, impedância e é inevitável não sentir isso no ouvido depois. Então uma boa solução é utilizar um ou dois pedais assim e tentar ter o resto true bypass. Fazendo isso o seu sinal está garantido. Se você é mais purista e tem todos os pedais true bypass não é má ideia montar um pequeno buffer para por entre o instrumento e a cadeia de pedais.
Um circuito do tipo é extremamente simples e barato para se montar. Não vai mais de 5 componentes e pode ser montado até dentro do instrumento. O consumo é mínimo. Vários controladores e loopers comerciais possuem duas entradas para a guitarra: Uma com buffer e outra sem. Fica ao gosto do guitarrista escolher a que mais lhe agrada. Eu resolvi partir para os testes e ter uma opinião formada sobre o tema. Montei vários circuitos e testei por horas até decidir o que fazer nas minhas montagens. O legal de começar a montar é que você encontra muitas variações de circuitos para casar melhor com violões, baixos e captações ativas e passivas. Sempre fica a pergunta: Como as marcas criam algo que casa bem com qualquer instrumento?
As marcas fazem circuitos meio termo que casam bem com praticamente qualquer equipamento. Mas você construir algo pensado para um determinado equipamento é muito melhor e traz resultados bem mais satisfatórios. Foi bem isso que senti ao brincar com esses circuitinhos. Montei alguns com transístores bipolares, fets e circuitos integrados. Os fets e integrados foram os que mais me agradaram pela facilidade em montar e ruído zero. Não que com transístores bipolares tenha dado muito ruído. Resumindo. Acabei escolhendo a montagem com circuito integrado pela simplicidade, ruído zero e facilidade em encontrá-los no mercado. Qualquer loja de eletrônica tem integrados como o 741 ou TL071 em stock e não custam mais que 1 ou 2 reais nas lojas mais caras.
O circuito campeão e que escolhi para o meu set foi o IC buffer difundido pelo site General Guitar Gadgets:

O site sugere o uso de um TL071 mas qualquer outro da mesma família pode ser adaptado. A série da texas “OPA” é muito recomendada pois o ruído desses integrados é algo absurdamente baixo. Mas são mais chatos de achar no mercado nacional e custam de 5 a 8 reais. Tenho algumas unidades mas preferi o bom e velho TL071 que é moleza de achar e se montar tudo bonitinho não tem nenhum ruído também.
A configuração com dois resistores de 2M2 atende bem as captações passivas. Para quem tem captação ativa usar 1M é um bom começo. O meu ficou como está no esquema e teve um resultado 100% com as minhas guitarras.
Montei em uma pequena plaquinha para testes mas a versão final para o meu controlador vou montar na própria placa que abriga os relés. Como sabem o meu controlador servirá apenas 3 pedais, mas decidi adicionar um buffer para poder ter a guitarra ligada direto no controlador e o mesmo poder estar bem longe do amplificador. Há quem diga que com um buffer dá para usar cabos com 30 metros ou mais sem perder sinal. Não testei, não posso falar!
Outro circuitinho que achei muito maneiro mas que no momento não vou utilizar no projeto é um splitter. É um buffer com um splitter de sinal para você mandar o sinal da guitarra para mais de um amplificador:

Funciona super bem também. Ruído zero e para quem quer mesclar sons e fazer um set mais complexo é uma boa pedida. AQUI você confere o artigo completo.
Fica aqui documentada mais uma etapa do meu projeto. Algo simples que dá tanto o que falar, não é mesmo? O lance é ir com calma e fazer algo bem feito e definitivo.
E você, tem um bufferzinho no seu set?

Controlador de pedais com Arduino – Relés

Salve nobres! Espero que todos tenham passado muito bem o natal e ano novo. Com a correria de final de ano nem pude entrar aqui e agradecer. O blog em pouco mais de 4 meses de vida passou a marca das 3500 visualizações. Obrigado galera! Feliz 2013 para todos e vamos para as gambiarras!
Como ficou por falar no post anterior, o papo de hoje é sobre relés em circuitos para guitarra. Quando comecei a brincadeira do controlador de pedais não tinha a menor ideia das proporções que a minha pesquisa ia tomar. O que pensei ser algo fácil de “ratear” pela internet virou um grande nó na minha cabeça com mil soluções malucas. Foi quando comecei a ficar maluco e resolvi testar as coisas. É bem provável que este post ainda continue pois não pude fazer todos os testes que queria por causa da falta de tempo. Mas vamos aos fatos:
A internet está cheia de soluções e a maioria delas não podemos confiar. Li muitos sites, fóruns e conversas em redes sociais sobre bypass com relés e cada um diz e sugere uma coisa. Os puristas renegam os relés, os despreocupados querem a todo custo partir para comutações eletrônicas. Depois vem a turma que fica em cima do muro. A grande maioria vai pela teoria e esquece que temos de montar e testar as coisas até chegar em um resultado desejado.
Afinal, qual o problema da comutação por relés? Eu diria… Nenhum!
A  maior parte das queixas das pessoas é sobre cliques e puffs que este tipo de comutação pode dar. O problema dos puffs está diretamente ligado ao circuito que você liga no relé. Isso é algo fatal. Pedais com bypass eletrônico dificilmente possuem resistores ligados ao terra entre a entrada e a saída e os capacitores ficam “abertos” e carregados gerando um baita barulhão ao comutar. Falam dos relés, mas um controlador de pedais feitos com 3pdt de qualidade também pode dar isso uma vez que é um problema alheio aos componentes que estamos tratando. Devo dizer que é um pouco raro isso acontecer. Testei em vários pedais e não tive muitos problemas com isso. Depende muito do pedal que você vai usar. Até produtos renomados no mercado que usam relés e prometem “zero pops e clicks”  não conseguem escapar quando usados com alguns pedais e a turma cai matando nos fóruns das marcas pedindo alguma solução. A solução é sempre a mesma. Soldar um resistor de 1M entre a entrada e o terra e na saída a mesma coisa. É sabido que adicionar um resistor assim altera a impedância e frequência de resposta de todo o circuito. É por isso mesmo que o ideal é começar com 1M e ir aumentando até conseguir o maior valor que ainda consiga resolver o barulho. Normalmente um bom valor fica ali entre 1,5M e 2,5M. Cada caso é um caso…
Outro problema comum são os clicks de comutação. A causa é praticamente uma só, mas há controvérsias. Boa definição, não?
Os clicks surgem da própria arquitetura do relé. Micro capacitâncias parasitas entre os contatos e a bobina acabam criando esse desagradável barulho. Ele pode ser resolvido de várias formas. É aí que entram as controvérsias. Aqui faço uma advertência para as pessoas que buscam soluções milagrosas na internet.
 Após a minha investigação descobri nos testes algo muito curioso. Um relé é muito mais suave e a sua comutação é bem mais baixa que um 3pdt. Ficamos tão preocupados com os clicks que criamos um preconceito em torno disso e queremos que a comutação seja zeradinha até com o volume no máximo. Coloque um relé e um 3pdt ou dpdt lado a lado e tire as suas próprias conclusões. Outra coisa bacana é que os interruptores de pisar possuem uma vida útil bem mais curta, de 20 a 50 mil comutações. Um relé passa a marca das 100 mil sem grandes danos.
Testei muitos relés de vários modelos e marcas.
Marca boa nem click dá, e se dá você resolve facilmente com alguns componentes de forma a tornar a comutação mais macia e/ou lenta.
Relé vagabundo não tem cura. Não servem para o que queremos comutar. Funcionam muito bem com lâmpadas e outros circuitos domésticos. Bati demais a cabeça com isso. Comprei relés em que as marcas nem sequer constam na internet e todos esses “xing lings” não prestaram para o que eu quero fazer. Vivemos em um país onde a falsificação de componentes eletrônicos é uma triste realidade. Muito cuidado! Compre em lojas que são representantes das marcas. Não se deixe enganar pois o relé por mais que não sirva para a guitarra pode até ser perigoso para utilizar em outras coisas e te dar um prejuízo enorme em outras montagens. Os melhores resultados vieram de relés de boas marcas e com os contatos banhados a ouro. Segue aqui uma pequena lista de marcas que recomendo:

OMRON
TAKAMISAWA (Fujitsu)
NEC
PANASONIC
FINDER
METALTEX (Marca nacional)

Testei muitas marcas que por motivos óbvios não vou ficar falando aqui que não prestam. Sei que existem várias outras e se um dia tiver a oportunidade vou testar e dar a minha opinião. Por enquanto são essas que eu recomendo para quem deseja montar algo sem esquentar a cabeça.
Existem dois tipos de relés muito usados em circuitos como esse que estou fazendo:

Miniatura:


Ultra miniatura:

Testei os dois tipos. A vantagem dos ultra miniatura é que são pequenos mesmo. São menores que uma moeda e a corrente que consomem é praticamente a mesma de um led de alto brilho. Muitos circuitos lógicos como o arduino podem ligar um destes diretamente sem o uso de um transistor. Isso faz da montagem algo super simples. Mesmo assim recomendo usar um transistor para ficar tranquilo e ainda aproveitar para por um led em paralelo e mostrar o efeito que está ligado no momento.
Os maiores mas ainda miniatura são robustos e aguentam melhor os tempos e temperaturas de solda. Os pequeninos devem ser colocados em soquetes e depois presos por cima de alguma forma para não caírem.
A qualidade da comutação de ambos é muito boa. Tirando toda aquela história de marcas que já falei antes. Os grandes me pareceram mais estáveis e vale a pena usar em circuitos maiores onde é necessário mais de 5 relés. Para um controlador simples como o meu acho que vou utilizar os pequeninos mesmo.
Quem pensa em montar algo grande tipo rack os miniatura são os mais indicados.
 Essa foi uma introdução aos testes e resultados que consegui. Antes de bater o martelo ainda quero investigar mais e assim que tiver novidades vou correr contar para vocês.

Até!

Controlador de pedais com Arduino

Quando comecei a tocar guitarra me apaixonei pelo mundo da eletrônica. Mais precisamente a eletrônica analógica e posteriormente o mundo das válvulas. Relutei e reluto em alguns aspectos até hoje para aceitar o mundo digital no que toca equipamentos para guitarra. Efeitos ao menos para mim nem sequer entram na lista. O único que abri espaço foi o delay, mas ainda prefiro os robustos analógicos. Sempre que me falavam em programação eu achava algo insano, caro e instável. Não me inspirava confiança. Na época em que comecei a brincar com eletrônica os integrados programáveis eram caros, consumiam muita energia e “do nada” acontecia de perderem tudo o que foi gravado. Dependendo das ligações feitas isso podia até queimar componentes. Além de todas essas desvantagens, era preciso comprar um programador para passar o código, que era grande, caro e instável no seu funcionamento e na comunicação com o integrado.

Semanas atrás rolou uma festa de final de ano lá na empresa e tive mais contato com um colega que trabalha no nosso departamento de engenharia. Já tinha ouvido falar muito do Arduino, mas nunca corri atrás por todos esses motivos. Ele começou a me contar as coisas malucas que fazia tanto na empresa como em casa com esse módulo. Perguntei se poderia controlar pedais e criar combinações para ativar durante uma música, por exemplo. Ele me disse que isso não era nada e que eu podia até controlar a luz do meu quarto pela internet. Além disso um módulo é super barato, pode ficar anos desligado sem perder a informação gravada e a forma de programação é relativamente simples. Basta ter um computador com USB e ele é compatível com todos os sistemas operacionais.
A minha ideia por enquanto não é a automação residencial. Pensei logo em como usar isso para os meus equipamentos musicais. De todas as opções ainda fiquei com o controle dos pedais que é a coisa mais útil para mim. Não tem preço usar pedais analógicos, e muito menos poder sair de uma base com um overdrive e em uma só pisada atacar uma bela distorção com um gracioso delay embutido. Em um pedalboard tradicional isso dá um trabalhão e vira um autêntico sapateado moscovita.
Existem nos mercados internacional e nacional controladores de pedais e também em sites e foruns DIY. A maioria usa 3pdt ou relés para esse chaveamento. Os mais versáteis usam também dip switches para você criar as combinações e alterá-las quando quiser.
Estes com dip switches são legais, mas te obriga sempre a pisar mais uma vez para voltar ao bypass, e também limita o guitarrista na hora de trocar combinações.Você tem que pisar para desligar uma e depois pisar no outro botão para a outra combinação, o que não elimina por completo o problema do sapateado. Outra coisa limitada é trocar as funções dos botões.
Você não pode trocar rapidamente as funções dos botões já que requer mudar muitas chavinhas nos dip swiches e testar para ver como fica a combinação final. Sem contar que anotar cada “patch” desejado num papel é duro.
Foi pensando nessas coisas em conjunto com o Arduino que resolvi montar algo moderno que resolvesse algumas dessas limitações.
Comprei uma placa por 50 reais e iniciei a fase de protótipos. Estou testando em módulos e construindo um só projeto com os melhores resultados de cada.
Aqui entra a fase experimental:

Cada switch preto representa um botão de pisar e cada led representa um pedal. Este protótipo foi desenvolvido para ser utilizado com 3 pedais, criando assim as seguintes combinações:

Botão 1 – Liga e desliga o pedal 1
Botão 2 – Liga e desliga o pedal 2
Botão 3 – Liga e desliga o pedal 3
Estes primeiros botões programei para serem acionados em forma de soma, ou seja, se pisar no primeiro e depois no terceiro, eles ficarão ligados e um não anulará o outro.
Botão 4 – Liga o pedal 1 com o pedal 3
Este já é um botão de preset. Ao pisar neste botão novamente o aparelho fica em bypass. Se pisar no botão 2 ele anula o preset e liga só o pedal 2. Se pisar em um dos botões dos pedais já ligados no preset, ele irá desligar o pedal pisado. Por exemplo:
O preset é pedal 1 com o pedal 3. Se pisarmos no botão 3 ele irá desligar o pedal 3, mantendo o 1 ligado. Tudo isso pode ser programado de acordo com a necessidade.
Botão 5 – Liga o pedal 2 com o pedal 3. O resto é igual ao que falei para o botão 4.
Botão 6 – Este botão quando pisado desliga TODOS os pedais ou combinações e coloca tudo em bypass. Quando o bypass está ativo, um led liga e fica pulsando.
Aqui o vídeo para mostrar melhor como funciona:


Usei leds no protótipo que serão substituídos por relés para controlar os pedais.
No próximo post sobre o tema vou falar sobre eles.

Fender Hot Rod Deville – Transformador de Potência

Fala povo guitarreiro. Antes nunca do que tarde! Como prometido agora vou falar sobre o transformador de potência do amplificador Fender Hot Rod Deville. Quem acompanha o blog e mais especificamente a série de posts sobre este amp vai lembrar que comprei ele fora do Brasil. O tempo em que vivi e utilizei ele no exterior foi só alegria pois nunca tive que pensar em toda essa questão de tensão de rede. Ele originalmente foi feito para 230v 50Hz. Quando cheguei no Brasil mudei para uma cidade 127v 60Hz. Por anos bati a cabeça para resolver o problema. Enquanto não tinha solução, usei um autotransformador que foi resolvendo o problema mas era muito complicado ficar carregando mais uma coisa além do amp que já pesa 35kg. Sem contar que a ligação entre eles tinha que ser uma bela gambiarra e o aterramento era feito com um ponto no chassi, o que tornava o uso ainda mais aparatoso. Teve show que fiz sem aterramento, tomei choque e ainda fiquei aturando um baita ruído no amplificador.
Quando cheguei procurei várias fábricas de transformadores e também construtores e/ou reparadores que na hora do marketing falam que fazem tudo. Sempre que colocava o meu problema davam um pulo para trás. Alguns fabricantes de transformadores até falavam que faziam, mas que com certeza eu ia estragar o amplificador ao instalar. Me tomavam por burro e eu respondia: É bem por isso que estou procurando uma ajuda supostamente “profissional”, muito obrigado!” (tu – tu – tu…)
Eu entendo o medo de por a mão em um amplificador tão caro e modificar a sua versão original para poder funcionar em outra tensão. Duas coisas eram inevitáveis: Trocar por outro ou enrolar novamente o transformador de potência. Recebi sugestões criativas e até engraçadas como acomodar o autotransformador dentro da caixa, mesmo eu falando todo o transtorno que isso me causava. Cheguei até a receber sugestões absurdas de adicionar um transformador isolador, que tinha o dobro da dimensão do que eu já estava usando. Outro motivo para ninguém ter vontade de encarar esse pepino é a falta de informação disponível sobre esse amplificador. É difícil saber as especificações dos transformadores destes amplificadores e a turma prefere não arriscar. Uns até queriam ir no chutômetro medindo as tensões e tentando enrolar um trafo novo parecido. Mas não caí na primeira proposta e continuei firme na minha busca. Quando comprei o Tubescreamer T-Miranda que inclusive está aqui no blog, perguntei para a área técnica deles o que poderiam fazer com o meu amplificador. Não entraram em detalhes sobre o que poderiam ou não fazer, mas me falaram que estavam cheios de encomendas e no momento não poderiam cuidar disso. Para a minha alegria me indicaram uma empresa em São Paulo que vende peças originais para amplificadores de várias marcas, incluindo o meu! Entrei em contato e encomendei o transformador com primário 120v que vem do México. Todos os Fenders que funcionam em 127v no brasil na verdade são para 120v que é a tensão usada nos EUA. Assim que o transformador chegou fiquei estudando por umas duas semanas todas as ligações para não ter erro. Respirei fundo e fui a luta.
O primeiro passo foi retirar com cuidado as válvulas e guardá-las em um local seguro e devidamente ordenadas como estavam no amplificador.

Depois disso o pepino foi tirar com muito carinho o chassi da caixa para a troca propriamente dita.

O legal da produção em série é que a marca pensa em tudo e algumas peças estão prontas para todas as versões. Notem os dois furos que encontrei no chassi após remover o transformador de potência:

O novo transformador que instalei é menor pois só tem um enrolamento primário, enquanto o antigo tinha três com tensões de entrada de 100v, 230v e 240v.

Transformador novo instalado, agora é colocar o chassi no lugar e começar a pensar na ligação dos fios.

Apesar da “fiarada” respeitar rigorosamente as cores do esquema que acompanha o amplificador, nunca é demais ligar antes o transformador e medir as tensões para evitar surpresas.
Uma modificação que adicionei foi a troca do tipo de tomada:

A modificação consistiu em trocar o padrão europeu de tomadas redondas para o novo padrão “Lula” introduzido no Brasil. Para isso cortei o fio do antigo cabo e aproveitei os encaixes na chave de “liga” com um sindal cerâmico que é muito robusto. Foto final de toda a modificação:

Vale lembrar que a modificação exige a mudança do fusível de 1,6A para 3A.
Depois de tudo conferido, foi só ligar o amplificador e dar uma olhadinha no bias.
Quando terminei, acabei me deparando com algo na internet que tinha procurado por quase três anos:

 Tá, fiquei meio irritado com a coisa mas por outro lado feliz por manter o amplificador com componentes originais. Quem sabe um dia mande fazer um belo transformador para ele com vários primários e instale com chave seletora. A saga não acaba aqui. Existem mais coisas a fazer mas antes de publicar quero estudar bem e realizar com calma para poder sempre passar uma informação definitiva para vocês.

Fender Hot Rod Deville – Reverb

No amplificador HRDV o reverb é introduzido através de um circuito solid state. Antigamente o reverb era feito com uma válvula de pré e um pequeno transformador para casar a impedância do tanque com o restante circuito. Neste amplificador o reverb foi bem conseguido e o som é muito bonito e profundo. Soa tão bem quanto os reverbs valvulados e penso que não há necessidade de válvulas nesse tipo de circuito. A vantagem é que qualquer problema é fácil de detectar e resolver. É claro que também tem as suas desvantagens e já vamos ver isso. A parte de reverb é feita com um circuito integrado 4560:

Na primeira versão do amplificador era usado um TL072, que é mais fácil de encontrar mas também mais ruidoso.
Então, quais seriam as desvantagens? Para quem toca, nenhuma. Você só se depara com as desvantagens quando o reverb deixa de funcionar como aconteceu comigo. Até então era tudo uma maravilha. Mas tudo tem solução. São dois os maiores problemas:

1 – Fragilidade do tanque.
2 – Grande dificuldade em encontrar este tipo de tanque no mercado nacional.

1 – Por ser um tanque projetado para ser usado com transístores, a sua impedância de entrada é muito mais alta que os tanques para válvulas. Com essa impedância mais alta, requer mais voltas no transformador do tanque, um fio de cobre mais fino que um cabelo , e claro, com isso acaba diminuindo demais a corrente suportada por ele. Só para vocês terem uma ideia da fragilidade do tanque eu coloco aqui uma tabela de impedância e corrente de vários modelos e o que equipa o HRDV está em azul:

 É o segundo tipo de reverb mais frágil  fabricado pela accutronics. Imaginem que com 3,1mA de corrente qualquer pico de energia pode queimar o tanque na hora. Foi o que aconteceu comigo, mas faço aqui um “mea culpa” por isso ter acontecido. Onde moro agora não tem aterramento e sempre toquei com o amplificador assim mesmo. É o tipo de coisa que pode acontecer até com quem tem tudo bem instalado, mas eu abusei da sorte e um belo dia liguei o amplificador e não tinha mais reverb. Só agora no final do ano foi reformada toda a parte elétrica do prédio onde moro e já tenho aterramento funcionando em todas as tomadas.

2 – Não é impossível achar o tanque no brasil, mas as lojas estão voltadas a vender tanques para amplificadores mais antigos e com nenhum deles as especificações casam para este modelo. Quando tudo aconteceu eu estava com muita pressa pois já tinha um show na agenda e não podia ficar com o amplificador naquele estado. O modelo original dele é um 4EB3C1B. Até hoje não encontrei nenhuma loja com esse modelo em stock. No desespero acabei comprando um 9EB2C1B que possui as mesmas características de impedância, 2 molas longas como o original, mas possui um tempo e profundidade de reverb mais curtos. O som não fica tão “hall” e a duração realmente é mais curta. A tradição de reverb nos fender sempre foi a profundidade e duração. Provisoriamente serviu, e agora com calma estou encomendando um original para ter o amplificador como veio de fábrica. Pesquisei um pouco e descobri que o modelo que comprei é muito utilizado nos amplificadores da Peavey.

Reparo propriamente dito:
Foi uma dor de cabeça resolver o problema. Não só para comprar o tanque, mas quando fui trocar descobri que o circuito integrado que controla o reverb também havia queimado. Foi uma soma de azares. Trocar o integrado é super simples, mas é “só” necessário desmontar o amplificador inteiro e remover aquela placa gigante para fazer isso. É algo que leva uma tarde inteira e são muitos parafusos, detalhes e a placa tem de ser manuseada com muito cuidado pois por causa do seu tamanho pode quebrar com muita facilidade. Como desmontar o meu amplificador não é um esporte que eu pratique todos os dias e com grande desenvoltura, resolvi colocar no lugar do CI um socket e assim me livrar de desmontagens e soldas no futuro. Trabalho feito, só alegria:


Não tive mais problemas com o reverb desde então. Ainda aguardo o tanque original para deixar ele com o somzão que sempre teve, mas agora estou mais tranquilo pois só de ter um CI móvel já ajuda um monte se algo acontecer no futuro, o que eu duvido. Foram mais de 6 anos usando o amplificador e nada aconteceu. Acho que foi azar + falta de aterramento!
No próximo post sobre o Hot Rod Deville vou falar sobre a troca do transformador de potência.

Até lá!