Inox – A missão: o desafio do braço

Galera. Segue aqui a fantástica matéria que o meu amigo Fabrício Barbosa fez para o blog:

Esses dias estava falando com o Francisco, dono desse blog, sobre a minha intenção de trocar os trastes da minha “PRS” e como eu estava sendo surpreendido quanto a algumas coisas que estavam acontecendo. E num belo dia que fomos tomar uma bera com uma galera dos bons sons surgiu a idéia de fazermos um post relatando isso.

Depois de algumas idas e vindas, finalmente está aqui.

A história desse post começa há uns dois anos quando decidi fazer a troca de trastes da minha Strato frankenstein e pensei que uma retífica da escala seria uma boa, pois o braço já estava comigo há 15 anos e precisava de uma reforma.

Já tinha lido sobre as vantagens do traste inox e pesquisava quem faria isso até que um colega do finado, e de certa forma, saudoso Guitar Player Forum Brasil me sugeriu o Tom Castelli da Di Castelli´s aqui de Curitiba. Já conhecia o trabalho dele e resolvi pensar no assunto.

Para resumir uma longa história, fui lá e mandei fazer, e desde então tornei me um adepto convicto dos trastes inox, pela incrível tocabilidade e durabilidade que proporcionam. Some-se a isso o fato que o trabalho de instalação tinha sido primoroso.

Desta vez eu queria trocar os trastes de uma “PRS” feita por um outro luthier há uns 8 anos. Contudo havia um porém: a época que mandei fazê-la não prestei atenção na definição do raio da escala, e sem ter pesquisado devidamente deixei a cargo do luthier fazer do jeito que ele estava acostumado, e isso se provou um certo incômodo ao longo dos anos. Ela tinha escala totalmente flat, reta como uma tábua de mesa, com trastes jumbo, e desde então sempre senti que o braço do meio para o final da escala era meio difícil de tocar e por esse motivo houve épocas que eu não peguei nessa guitarra, somente na Strato Frank…

Este ano resolvi por os trastes inox nela, e fui falar com o luthier que a tinha construído. Para a minha imensa surpresa ele me disse que não dava para colocar pelo fato da escala ser plana. Isso disparou uma enorme curiosidade e resolvi pesquisar, consultando algumas pessoas e outros luthiers para saber como se comportariam diante desse fato.

Mais surpresas: o resultado foi que de 4 profissionais consultados, 2 disseram que não era possível fazer, 1 que aceitava, e outro que não disse que sim nem que não.

De posse desses dados consultei o mestre Mauro Tanaka Riyis, da Tanaka Luthieria de Sorocaba-SP, que não muito por acaso é membro do Boteco dos Guitralhas e conhecido de longa data do já citado Guitar Player Fórum Brasil.

A resposta dele foi: “claro que dá para fazer, vai ser um desafio, porém mudará a ação das cordas e a pegada vai dar uma diferença.” Só confirmou o que eu já tinha lido, mas o aval dele foi decisivo.

E como o trabalho do Tom Castelli´s tinha me impressionado na Strato Frank lá fui eu na oficina dele. Era para ser uma conversa de meia-hora e no final quase se estendeu por duas horas, tamanha é a quantidade de informações e atenção dispensada por ele.

Expliquei o lance de publicarmos no blog do Francisco e ele topou.

Então começou o trabalho e sugeri de registrarmos as etapas do processo.

1°) Da conversa inicial expliquei sobre o braço de inox da Strato e da minha preferência, que ele entendeu e novamente incentivou que fosse colocado, explicando e mostrando as diferenças entre os vários tipos de trastes existentes e como se comportariam.

Dessa conversa ficamos na dúvida se faríamos o raio em 10” ou em 12” polegadas. Ele sugeriu 12” que é o raio das Gibson e eu queria 10” pois tinha tocado numa PRS Mark Tremonti recentemente e o braço era inacreditavelmente confortável. Pesquisamos em alguns sites, houve várias ponderações por parte do Tom e então bati o martelo no raio 10”.

Isso tem consequências diretas devido ao processo de calandragem dos trastes, i.e., a definição da curvatura do raio com os quais serão inseridos no braço.

Literalmente calandrar é encurvar.

Conforme o Tom explicou é necessário calandrar os trastes antes de colocá-los no braço que vai estar bem assentado e retificado também no mesmo raio.

Nessa etapa já surgiu uma surpresa: retirar o nut de latão e colocar um de osso por sugestão do Tom, pois ele verificou que um nut da Graphtec, que era a minha preferência, não daria certo, pois a largura do braço era maior que o padrão da PRS…

2ª) Então começou o processo de instalação e retífica propriamente dito:

Como o braço dessa “PRS” é colado, foram retirados os captadores e a ponte, deixando o braço totalmente livre para poder trabalhar, sem correr o risco de bater em algum desses componentes.

3ª) Definido o raio da escala iniciou-se o processo de retirada dos trastes. Em seguida foram aquecidos os trastes para facilitar a retirada dos mesmos. Segundo o Tom explicou ele faz isso “um a um para que não aqueça muito a escala”.

4°) Aqui começou o processo de checagem do braço sem os trastes e novas surpresas começaram a aparecer.

Quando foi colocada a régua para checar a retidão do braço já apareceram dois pontos em que ele estava com defeito, com abaulamento da escala, também conhecidos por buracos. O Tom explicou que isso pode ter ocorrido por vários motivos, sendo os mais prováveis trabalho natural da escala em decorrência do clima, ou ainda quando foi construído não foi devidamente planificado. As fotos mostram os pontos marcados na escala e na foto em perfil mostra o abaulamento.

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Foto 01: braço com a régua e os buracos, percebe-se pela luz que atravessa entre a escala e a régua.

5°) Depois desse processo a guitarra descansa por uma semana na estufa para assentar, com o objetivo de estabilizar o braço e novamente faz-se outra checagem nele e ajusta-se o tirante. Isso serve para avaliar se está ou não empenado, caso contrário fica mais alguns dias assentando.

6°) Em seguida determina-se em definitivo os pontos onde existem as falhas e ajusta-se o tirante novamente, então volta para a estufa por mais alguns dias para assentar o braço. Esse tempo de descanso na estufa vai depender de cada instrumento, das condições que cada um se encontra e trabalha.

7°) Então inicia-se o processo de retificação com o raio novo de 10” da escala propriamente dita. Podem ver nas fotos que ele inicia o processo retirando aos poucos pelas bordas até acertar o raio uniformemente em toda a escala.

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Foto 02: início da retífica do braço. Notem as marcações das área com buracos mais evidentes. A parte mais clara é o que já foi lixado, e a escura é a diferença que “sobra” para corrigir a curvatura.

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Foto 03: Detalhe da marcação da falha na escala e da retífica do braço.

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Fotos 04 e 05: braço com mais retífica. Comparem com a foto 02 como foi mais trabalhado, fazendo o ajuste fino para o raio 10”.

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Foto 05: braço quase totalmente retificado.

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Foto 06: visão em perfil do braço, vejam como os vazios já não existem, somente a passagem da luz pelo lugar do traste ainda não colocado.

8°) A instalação propriamente dita dos trastes com a calandragem devida.

Notem pelas fotos que o braço já está totalmente retificado com o raio de 10”. Na foto 08 vão notar que há excessos(ou sobras) de trastes, que serão posteriormente cortados e limados nas bordas, para que não haja rebarbas.

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Foto 07: já podem ver o braço totalmente retificado e o gabarito do raio 10”.

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Foto 08: instalação dos trastes inox em raio 10” com a calandragem  feita anteriormente.

9°) Reinstalação da ponte, dos captadores e parte elétrica

Aqui houve uma troca de um potenciômetro push-pull que estava dando problemas por um novo.

Os captadores mantive os que já estavam anteriormente, os excelentes Mojo, recriações dos famosos PAF feito pela Sérgio Rosar Pickups de Florianópolis. Altamente recomendados para quem busca um timbre mais vintage, sendo que o da ponte é um dos meus captadores favoritos.

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Foto 09: montagem dos captadores e peças. Podem notar que os excessos dos trastes já foram retirados.

10°) Colocação das cordas e ajuste final.

Colocadas as cordas, acertadas as oitavas e altura e pronto!

Todo esse processo levou em torno de um mês, e como o Tom explicou ele ainda acompanha a reforma pelos próximos 6 meses seguintes.

Quanto a tocabilidade e avaliação do trabalho não poderia ter ficado mais contente, pois esse era o braço que eu tinha em mente, com facilidade de acesso do começo ao final, além do acabamento e a retífica que ficaram expecionalmente bem feitos.

Em relação ao timbre eu não notei muita diferença por causa dos trastes inox, para ser mais sincero muda mais a pegada por causa do raio da escala, pois as cordas ficaram com a ação um pouco mais alta, as cordas vibram mais e soam melhores.

A pegada do braço também melhora por causa dos trastes inox, fica a sensação que o braço fica mais macio.

O objetivo do post não foi mostrar a minha guitarra, mas simplesmente instruir  para aqueles que pensam em fazer esse tipo de intervenção na sua guitarra tenham noção que o processo nem sempre é tão fácil ou simples, que existem uma série de fatores que vão influenciar, e que quando forem discutir com o luthier (ou técnico de guitarra) tenham conhecimento das etapas e sejam bem sucedidos.

Outro ponto importante a destacar é para o fato que além das madeiras e peças numa guitarra, há que se valorizar o capricho e qualidade de construção de delas. No caso desta “PRS” deu um upgrade considerável…

Quero agradecer ao Francisco aqui do blog Guitarras e Gambiarras pelo espaço cedido, e ao Tom Castelli pelo tempo e paciência que teve comigo e com o Francisco explicando e mostrando todo o processo.

Um abraço a todos!

Ps: na foto abaixo vemos o Francisco prestando atenção na explicação sobre a construção de instrumentos pelo Tom Castelli.

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