Golden Stratocaster – A Reforma

Nunca fui um fanático por instrumentos antigos. Sou um grande apreciador, mas tenho um TOC de sempre substituir componentes gastos ou em evidente oxidação. Um instrumento realmente vintage na minha mão seria um teste de autocontrole imenso. Mas é possível encontrar instrumentos nem antigos demais, nem novos demais. Pelo meio do caminho por assim dizer. Foi o caso dessa guitarra nacional Golden Stratocaster que chegou a minha porta como um cão abandonado, totalmente inesperada. Um belo dia um amigo a levou em um ensaio e me pediu para tocar e dar a minha sincera opinião.

A1Não conhecia essa série de guitarras. Se não fosse esta me chegar em mãos jamais saberia da história. Confesso que não acompanhei a história dos intrumentos nacionais. Em um primeiro momento ele me disse ser uma guitarra antiga, sem saber dizer com precisão o ano ou década. Mas isso pouco importava. Toquei e achei que a guitarra tinha um potencial enorme. Apesar de um hardware muito fraco e já deteriorado, notei que as madeiras pareciam boas e com um acabamento bem feito. Depois de ligar a guitarra no tal ensaio e verificar que para um instrumento naquele triste estado ela tinha um somzão, antes de fazer qualquer tipo de proposta resolvi buscar informações para saber que instrumento era aquele. Até então não sabia que iria ficar com ela, e meu amigo também não tinha oferecido, só pediu uma opinião e eu dei. Busquei na internet até encontrar mais informações. Basicamente são guitarras do final da década de 80, início da década de 90. Até onde consegui descobrir as dos anos 80 seguiam as especificações de madeiras da fender: Alder, Maple e Rosewood. É o caso da minha. A partir da década de 90 ainda fabricaram este modelo (medidas e headstock) mas passaram a utilizar madeiras nacionais como Marfim para o braço. Também soube que os modelos com acabamento sunburst eram normalmente em Alder e modelos em cor sólida compensado. Antes de ficar com ela verifiquei e contrariando as previsões, este exemplar é feito em 3 peças coladas de Alder. Na parte de trás a tinta descascou bastante e deu para ver em dois ângulos que tratava-se de madeira maciça, fato confirmado posteriormente pelo luthier que realizou a reforma. A guitarra estava bastante castigada pelo tempo, mal armazenamento e manutenção.

A4Algumas peças estavam já muito comprometidas. O Nut além de ser de plástico já havia sido alargado demais e os encordamentos normais ficavam tão colados nos trastes que o antigo dono colocou um palito de dentes por baixo para manter as cordas suspensas sobre a escala. O escudo e as capas dos captadores receberam do último proprietário (meu amigo) uma folha de madeira fina colada no plástico, mas sem nenhum tipo de acabamento. A ponte além de ser uma peça chinesa de péssima qualidade, estava completamente tomada pela ferrugem. Saddles e parafusos. Os parafusos dos saddles já nem tinham mais cabeça para a chave. O bloco era de zinco, fino e já tinha uma rachadura. Além disso, quando fui tirar as cordas só consegui remover as bolinhas das cordas com um alicate pois com o tempo elas ficaram presas dentro do bloco.

A3

As tarraxas eram muito fracas e algumas estavam totalmente presas. A elétrica era toda original. Os potenciômetros e chave não eram propriamente ruins e para a idade da guitarra não apresentavam nenhum tipo de ruído, o que me impressionou positivamente. Os trastes estavam totalmente gastos e não era mais possível ajustar a escala. Só dava para aproveitar as madeiras. A captação cerâmica fazia o trabalho sem ruídos, mas era pobre de tudo. Resumo da ópera. Não adiantava limpar, dar um tapa. Era preciso uma reforma completa para por esse instrumento soando bonito. Para qualquer um seria uma loucura comprar peças de qualidade para essa guitarra, mas acreditei e fui até o fim. Foi um projeto realizado com muita calma, e durou quase 2 anos para ter todas as peças e fazer acontecer.

A primeira coisa que separei foi a parte elétrica:

kit

O kit elétrico escolhido foi da stewmac com 3 potenciômetros Alpha 250kA, uma chave CRL 5 Way, Jack, Capacitor Orange Drop e fios.

Os captadores assim como a guitarra também são nacionais. Confesso que comprei em uma oportunidade, mas casaram lindamente com a guitarra:

captadores

Um trio de Malagoli Custom Alnico Blues. Nunca tinha utilizado captadores da marca. Nota 10, tão bons quanto outros importados que já usei.

As tarraxas também comprei em uma oportunidade, não foi proposital a cor mas também casou com o visual:

tuners

Um jogo Gotoh Cosmo Black ficou mais bonito do que eu imaginava e garantiram uma afinação impecável.

A ponte foi o maior problema de todos. Por ser chinesa, não bate nem na furação, muito menos no tamanho dos saddles com os padrões normais de Stratocaster. Nessa parte contei com a preciosa ajuda de duas figuras muito importantes:

O Carlos Manara, que me fez um bloco de aço de grande qualidade, e também fez a base da ponte idêntica à original, mas de boa qualidade e novinha em folha e sem ferrugem.

O Oscar Jr (do excelente blog Louco Por Guitarra), que me conseguiu os saddles da Callaham na medida que precisava.

E assim foi possível montar uma ponte fantástica, que fez uma diferença gigantesca no som final.

9

O bloco além de ser em aço maciço, segue o padrão vintage com as bolinhas no topo, passando um maior comprimento da corda por dentro do bloco.

5

Os trastes já não davam conta de mais reformas e foram substituídos pelos Stewmac 148. A escala foi toda lixada e novamente hidratada. O braço ficou como novo.

4Além das tarraxas pretas super bonitas, essa guitarra recebeu um Nut de latão que deu um som metalizado interessante nas cordas soltas, além de ter ficado chamativo depois de polido.

3

Este belo trabalho de restauro foi realizado pelo meu amigo Carlos Eduardo Luthier em Curitiba. Além de muito caprichoso, é um cara super gente fina e constrói violões de encher os olhos (e ouvidos).

1

Para fechar a brincadeira o escudo também foi lixado e recebeu uma hidratação para que as cores da folha de madeira ficassem bem vivas. Valeu os quase 2 anos de espera e o desafio de restaurar uma guitarra de 450 reais que ficou com qualidade superior a de muitos instrumentos importados disponíveis que custam muito mais. Lembrando que uma das principais vantagens que vi em fazer isso em uma guitarra antiga foi na qualidade e estabilidade das madeiras. No dia em que busquei no luthier estava um calor enorme na cidade, e no dia seguinte a temperatura caiu bastante. O braço extremamente estabilizado não se movimentou e a guitarra permaneceu com a afinação inalterada. Segura absurdamente bem a afinação.

Sim. Foi loucura e poucos aceitariam gastar mais do que o valor da guitarra para ter ela operacional outra vez. Sim, valeu a pena e todas a descobertas que o processo proporcionou.

Não poderia deixar de comemorar com um vídeo da menina em ação:

Amplificador: Fender Blues Junior

Overdrive: Tubescreamer TS9

Vibe: TC Electronics Viscous Vibe