Black Bug – Yellow Distortion

Dias atrás o meu colega de trabalho e guitarrista Fernando me pediu para dar uma olhadinha em um pedal esquecido no fundo do baú. Ele reclamou que o pedal não tinha o som que procurava e também apresentava ruído com muita facilidade. Resolvi ajudar na medida do possível. Aproveitei a oportunidade para publicar aqui no blog o que encontrei pelo caminho. Não consegui descobrir qual o ano de introdução da marca, muito menos a idade do pedal em questão. Segundo o proprietário o pedal é antigo, lá de 2002 +- e estava guardado a um tempão. Por isso também reforço já aqui no começo que não sei como estes pedais estão saindo da fábrica nos dias atuais, por isso em momento algum as opiniões publicadas aqui podem ser consideradas permanentes. Não conhecia a marca, muito menos o modelo. Outros modelos só vi pelo catálogo na internet e não sei como são. O pedal é bonito, padrão MXR em uma caixa de alumínio fundido bem robusta. A primeira impressão foi boa e para o custo de 90 a 120 reais me pareceu bem bacana. O alumínio foi fundido em um gabarito provavelmente de gesso. Notei que a superfície é muito porosa e a tinta acaba entrando nos furinhos, o que obriga a colocar muita tinta para cobrir todo o pedal. O fabricante diz que a pintura é eletroestática. Neste pedal certamente não foi, mas como disse é um pedal já “antigo”.
Antes de qualquer outro comentário vamos falar do som. Resolvi colocar o pedal no amplificador e testar. Usei uma bateria para eliminar problemas com ruídos. Não deu ruído, mas depois descobri algumas fragilidades no uso com fontes.
O som propriamente dito em nada se parece com o MXR Distortion +. Apesar do focinho ser igualzinho, o pedal tem um som bem diferente. A distorção me pareceu muito seca, raspada e com os graves extremamente roncados. O pedal com o ganho no mínimo satura e lembra um fuzz só que muito seco. Devo dizer que pelo preço e pelo som é um pedal indicado talvez para o guitarrista mais iniciante para um primeiro contato com uma distorção. Talvez quem queira fazer um grunge mais exótico o pedal sirva. Para quem procura sons mais clássicos ele vai ficar devendo.
O dono do pedal me perguntou se seria possível melhorar o som dele. Aí resolvi abrir para ver o que poderia fazer por ele.
 O pedal tem um compartimento interessante para a bateria separado com um plástico que me pareceu suficiente:

 Assim que abri entendi o motivo do pedal ser tão sensível e ter ruídos com facilidade. O aterramento da caixa é feito com uma pequena folha de cobre soldada na placa e que é prensada contra a caixa quando o pedal é fechado:

 Sinceramente não entendi a razão de ser assim. A tampa fecha bem mas não com pressão suficiente para manter a folha de cobre bem firme contra a caixa. E mesmo que ficasse, não é um aterramento muito eficiente. O mesmo poderia ser feito na carcaça dos potenciômetros, nos jacks (se utilizados de metal) ou na pior das hipóteses até mesmo com a parte metálica do dpdt que fica em contato com a caixa. Além disso faltou um capacitor de 100uF na entrada da fonte para filtrar eventuais resíduos provenientes da rede.
Olhando a placa por trás reparei que não tinha praticamente nenhum circuito e a placa é feita mais de “terra” do que outra coisa. Sanei a minha dúvida ao tirar todos os parafusos e removê-la da caixa:

Mais uma vez fiquei sem entender como o pedal foi pensado. A placa foi toda desperdiçada e o circuito mesmo acontece em uma plaquinha toda pendurada na placa principal:

O que achei mais curioso é que a marca gastou dinheiro para mandar fazer uma placa padrão comercial com serigrafia de componentes e acabamento com verniz verde mas não aproveitou o tamanho para aplicar o circuito. A placa pendurada que é também o “coração do circuito” abriga um integrado 741, foi feita de forma artesanal e não possui a mesma qualidade da placa principal. Ficou estranho. Outra coisa muito estranha que encontrei foi o uso de resistores de 1/8w, 1/4w e os desnecessários 1/2w. Parece que foram colocando os que tinham disponíveis nas caixinhas na hora. No caminho do sinal foram usados muitos capacitores cerâmicos, o que explica o som tão seco, raspado e potencialmente ruidoso. O pedal também não possui parte de clipping, o que também faz a distorção roncar tanto e ficar seca. Os potenciômetros foram soldados com terminais prolongadores e também não entendi o porquê de não usarem fios simples. Para montar e desmontar o pedal é preciso ter cuidado pois se não for tudo bem encaixado torce todo o pedal por dentro e entra tudo em curto. Nas duas placas nota-se que o fenolite foi cortado com um alicate, o que deixou algumas partes rachadas. O pedal realmente é handmade. Dá para ver bem isso. As soldas nas placas foram todas feitas manualmente e dá para ver o fluxo que não foi removido e ficou aquele amarelado em volta.
O dpdt é feito com uma chave simples, das mais baratas encontradas no mercado mas com um bom funcionamento. O led foi adicionado com um transístor que segue o mesmo princípio do millenium bypass encontrado em vários sites e em alguns pedais originais como o ProcoRAT. Funciona bem, tanto o led como o bypass sem ruídos ou estalos. Ponto positivo. Como os potenciômetros foram montados de uma forma mega estranha, instalaram fita isolante nas laterais da caixa para evitar que os terminais encostassem na caixa:

Outra gambiarra curiosa foi a adaptação que fizeram para o dpdt ficar soldado na placa:

Soldaram terminais simples na placa e depois soldaram na chave até ela ficar presa na placa. Achei a solução engraçada mas com o tempo o peso da própria placa pode arrancar as trilhas e aí não tem mais remédio. Na foto ainda dá para ver o “cutucão” que deram com o ferro de solda marcando o plástico da chave.
Conclusão:
Por enquanto me limitei a olhar o pedal. Embora fácil, não fiz nada para resolver o problema do aterramento e da falta de um filtro no jack da fonte. O Fernando me pediu para ver se podia resolver isso e dar uma “melhorada nele”, caso contrário, gostaria de aproveitar o que fosse possível do pedal para fazer um novo. A resposta é muito longa: Não vale a pena. O pedal tem um propósito e não adianta ficar inventando moda. É um pedal simples, low cost e indicado para quem está iniciando ou quer experimentar mais um dos milhares pedais disponíveis por aí. No caso do meu colega que é um guitarrista já mais apetrechado, vou sugerir utilizar a caixa e o dpdt para abrigar um outro circuito que podemos falar mais tarde.
Não sei como este modelo está saindo de fábrica agora, se foi melhorado ou não. A impressão que passou é que tudo estava muito no início mas já havia uma tentativa de profissionalizar a coisa e transformar em algo comercial mais sério. Pelos vistos até agora conseguiram já que estes pedais se encontram no mercado a uns bons anos e com diversos outros efeitos novos na linha. Achei que a fábrica acertou na mosca com a caixa mas não aproveitou bem para desenvolver a placa. Tem muita placa sobrando e dava para colocar um circuito muito mais elaborado e funcional. As empresas terceirizadas que fazem as placas cobram pela dimensão e não pelo número de furos e trilhas. Logo, a empresa jogou dinheiro fora e consequentemente o consumidor final perdeu com isso também.
E agora, o que vamos fazer Sr. Fernando?!

Sample do pedal para os mais curiosos:

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